A madrugada avança, já engolindo as primeiras horas da segunda feira, mas uma luz teimosa ainda permanece acesa no segundo andar daquele velho edifício.
O edifício nem é tão velho, mas seus vizinhos são jovens, por isso ele perde um pouco na comparação. A idade traz alguns inconvenientes, como a ausência dos cabos da Net. Mas é um prediozinho valente.
O mesmo não se pode dizer do jovem morador daquele apartamento iluminado escassamente por uma lâmpada raquítica e pela tela anêmica do laptop. Os pensamentos voam longe, a vida se esvai tão vorazmente quanto a madrugada.
Ele olha para fora, e a noite assusta. Mas logo será manhã. Os fatos simples da vida começam a se tornar repetitivos a partir de uma certa idade, e chegam mesmo a serem irritantes. Um desses fatos é a sucessão entre dia e noite, luz e escuridão. Seu organismo não se adapta mais tão bem ao jogo de luzes e sombras. Ora dorme de dia, ora deixa a luz acesa, sem conseguir afastar os abutres de seu pensamento.
Esse era o caso naquela noite. Dormiria tarde, não faria o que queria fazer no fim de semana, e durante o dia não teria ânimo para tocar o trabalho adiante. É um fracasso que, como os caixas eletrônicos, atende 24 horas por dia.
Em comum, no meio de toda a confusão dos dias agitados mas sem tempero, um único sentimento: o cansaço. A mente não consegue mais pensar por si própria. Os instintos caminham com suas próprias pernas e o levam aonde não quer ir. Se sente cansado, não quer pensar em mais nada. Cada pensamento é doloroso demais para ser completado. O que seria da familia, dos amigos, das pessoas que o querem bem? Como enfrentar, perto do fim, o sentimento de que não deixou nada de bom para o mundo, além de dor e sofrimento para as poucas pessoas que insistiram em amá-lo mesmo que ele se esforçasse ao máximo para afastar a todos?
As lágrimas acompanham esses pensamentos. E então ele prefere nao pensar.
Olha para fora de novo. As ruas solitárias, como seu coração. As calçadas vazias, como sua casa, como sua vida. Havia se mudado para uma cidade distante de todos os que o queriam bem. Como um cão leproso, que foge de casa para morrer longe do dono.
Os pensamentos iam e voltavam, e a dor vinha com eles, cada vez mais intensa.
A lógica lhe abandonava, e acreditava que a solução devia ser se afastar ainda mais das pessoas. Sabia que era a razão o que atirava pela janela, mas a atirava sem dó. Separava o joio do trigo, e ficava com o joio. O que fazer? Sempre fora como a mariposa atraída pela luz. Frágil, sem direção e sem amor pela própria vida. Só estava cumprindo o próprio destino.
Só havia um antídoto para a dor, e esse antídoto era o alívio de todas as cargas que pesavam sobre seus ombros. Não havia outro jeito, senão jogar tudo fora. As coisas boas, as ruins. A lógica, a loucura, o dia e a noite. Tudo se misturaria, naquele ultimo momento e desapareceria, através da noite que levaria consigo seus mistérios.
17 Agosto 2009
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2 comentários:
Desculpe a invasão, entrei sem pedir!!
Mas comecei ler e acabei me envolvendo no seu post...noites e dias difíceis, não sei se está falando de vc, mas escreve muito bem, e se está, achei linda a forma de se expressar!
Beijo
Obrigado Luiza. Que invasao que nada, sinta se em casa rs. Abração.
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