17 Agosto 2009
Uma luz acesa na madrugada
O edifício nem é tão velho, mas seus vizinhos são jovens, por isso ele perde um pouco na comparação. A idade traz alguns inconvenientes, como a ausência dos cabos da Net. Mas é um prediozinho valente.
O mesmo não se pode dizer do jovem morador daquele apartamento iluminado escassamente por uma lâmpada raquítica e pela tela anêmica do laptop. Os pensamentos voam longe, a vida se esvai tão vorazmente quanto a madrugada.
Ele olha para fora, e a noite assusta. Mas logo será manhã. Os fatos simples da vida começam a se tornar repetitivos a partir de uma certa idade, e chegam mesmo a serem irritantes. Um desses fatos é a sucessão entre dia e noite, luz e escuridão. Seu organismo não se adapta mais tão bem ao jogo de luzes e sombras. Ora dorme de dia, ora deixa a luz acesa, sem conseguir afastar os abutres de seu pensamento.
Esse era o caso naquela noite. Dormiria tarde, não faria o que queria fazer no fim de semana, e durante o dia não teria ânimo para tocar o trabalho adiante. É um fracasso que, como os caixas eletrônicos, atende 24 horas por dia.
Em comum, no meio de toda a confusão dos dias agitados mas sem tempero, um único sentimento: o cansaço. A mente não consegue mais pensar por si própria. Os instintos caminham com suas próprias pernas e o levam aonde não quer ir. Se sente cansado, não quer pensar em mais nada. Cada pensamento é doloroso demais para ser completado. O que seria da familia, dos amigos, das pessoas que o querem bem? Como enfrentar, perto do fim, o sentimento de que não deixou nada de bom para o mundo, além de dor e sofrimento para as poucas pessoas que insistiram em amá-lo mesmo que ele se esforçasse ao máximo para afastar a todos?
As lágrimas acompanham esses pensamentos. E então ele prefere nao pensar.
Olha para fora de novo. As ruas solitárias, como seu coração. As calçadas vazias, como sua casa, como sua vida. Havia se mudado para uma cidade distante de todos os que o queriam bem. Como um cão leproso, que foge de casa para morrer longe do dono.
Os pensamentos iam e voltavam, e a dor vinha com eles, cada vez mais intensa.
A lógica lhe abandonava, e acreditava que a solução devia ser se afastar ainda mais das pessoas. Sabia que era a razão o que atirava pela janela, mas a atirava sem dó. Separava o joio do trigo, e ficava com o joio. O que fazer? Sempre fora como a mariposa atraída pela luz. Frágil, sem direção e sem amor pela própria vida. Só estava cumprindo o próprio destino.
Só havia um antídoto para a dor, e esse antídoto era o alívio de todas as cargas que pesavam sobre seus ombros. Não havia outro jeito, senão jogar tudo fora. As coisas boas, as ruins. A lógica, a loucura, o dia e a noite. Tudo se misturaria, naquele ultimo momento e desapareceria, através da noite que levaria consigo seus mistérios.
06 Abril 2009
Um olhar distante
Seria um mal das segundas feiras?
Não. Na verdade, é o verão que se despede. Mas não sei dizer se o que está lá fora é outono, inverno, ou primavera. Tudo se confunde sob a chuva fina. As nuvens derretem, vertendo água e ressurgem sempre mais fortes e escuras.
Tive pensamentos que me assaltaram na calada da noite. Eles ficaram comigo porque o dia ainda não chegou, exceto por alguns raios de luz que escapam pelas bordas das nuvens que cobrem o céu.
Minha visão transpassa os horizontes esverdeados e as nuvens cinzentzas. E tudo isso parece maior do alto deste edifício. É interessante notar que quanto mais alto subimos, menores nos sentimos diante da imensidão do mundo que nos cerca. E muitas vezes, cegos pela ilusão de poder, não percebemos essa pequena verdade, encolhida em nosso coração.
Mas por mais amplos que sejam os horizontes, enxergo além deles. Pretensão? Não, não carrego nenhuma nestas palavras. Não sou como os políticos, tão visionários no discurso quanto cegos em seus atos. Cegos, propositalmente cegos enquanto esta cegueira lhes trouxer dividendos que possam ser contabilizados sobre as mesas. Quereria eu então me igualar aos grandes filósofos? Cientistas? Profetas? Afinal, quem penso que sou para querer ver além dos horizontes, tão inacessíveis, tão insondáveis para nós mortais?
A isto respondo: os horizontes estarão sempre lá, para quem os quiser desbravar. Basta olhar para eles e deixar que a imaginação faça o resto. E então ela atravessará as montanhas, alcançará as nuvens, descobrirá outro mundo possível além dos limites da visão.
Mas quem tem tempo de mirá-los?
Desbravar horizontes é um ato de desprendimento. Preciso esquecer tudo que me cerca. Desprezar o que é próximo e abraçar o longínquo. Esquecer o urgente e caminhar sem pressa. Sim, sem pressa, pois a urgência que temos para chegar à esquina não é a mesma que sentimos quando precisamos completar uma viagem de mil quilômetros.
Quem pode se dar ao luxo de não viver o mundo que o rodeia? Alguém com certeza poderia fazer esta pergunta. Como não se preocupar com tantos detalhes importantes? Com as contas a pagar, as pessoas ao redor, as tarefas por fazer? Não, não podemos nos dar ao luxo de olhar para o alto e tropeçar nos obstáculos, precisamos vencê-los, não é verdade?
Sim, respondo. Claro que nossas vidas são importantes.
Mas.... e quem pode se dar ao luxo de deixar de sonhar?
24 Janeiro 2009
Estrelas cadentes
Essas pessoas se doam, até a última cinza que resta... mas o mundo é mais forte e vence.
Mas para os que vêem seu brilho fica a certeza de que aquela não é uma estrela qualquer. É uma estrela que traz a esperança. Ao vê-la, inconscientemente fecho os olhos e faço um pedido...
Peço que o mundo se torne um céu estrelado, e que as estrelas cadentes possam finalmente ocupar seu lugar no firmamento. Que reluzam, fulgurantes, para iluminar nossas noites sombrias. Que as pessoas sejam reconhecidas pelo valor que possuem, e não pelos valores dos quais detêm a posse...
E se isso não acontecer... que eu também possa ser uma estrela cadente e derramar até a ultima cinza por aquilo que acredito. Para iluminar a noite de alguém, ainda que por um breve momento, e plantar no coração daquela pessoa a semente da esperança.
E esta semente florescerá. Dará frutos, se multiplicará por entre as gentes. Para que um dia, meus netos vejam não mais estrelas cadents, mas um céu estrelado, onde o brilho de cada ser humano reluzirá, como o ouro resgatado no fim do arco-íris.
25 Dezembro 2008
É natal
Este 25 de dezembro significa mais pra mim o peso da velhice, do que o despontar do novo. Mais um ano na folhinha. Mais um prego no caixão, mais rugas na face, menos cabelos na fronte. Tudo isso até podemos aceitar, já que faz parte do jogo. Afinal teremos também mais histórias pra contar. Mais lembranças, mais dias vividos, se não os melhores possíveis, pelo menos algo de que se possa, ainda que comedidamente, orgulhar...
... será mesmo?
Pois eis que coleciono mais lembranças das vidas que nunca vivi. Dos dias que nunca tive, das pessoas que nunca conheci. Tudo o que deixo pra trás é um incessante vazio. Escrevo as páginas da minha vida com uma pena sem tinta.
Mas minto. Nem tudo é vazio no livro da minha vida. Mãos alheias, que se compadecem de minha pobreza de espírito, correm a escrever tortas linhas em meu consolo. E na ausência delas, a mão infinita do destino escreve em caprichosas letras histórias de bênçãos, mais do que de tragédias, sobre o caderno vazio.
Claro que os livros da vida se escrevem a muitas mãos. Livros carecem de bons personagens, e os protagonistas carecem de ajuda para lutar contra um mundo que a cada dia se agiganta e ameaça esmagar o já diminuto espírito humano.
Aproveito e faço um aparte para agradecer aos co-autores de meu livro, que tive a felicidade de encontrar durante meus 28 anos de vida. Em sua maioria, pessoas que me orgulham muito em chamar de amigos.
Mas já é hora de pegar a pena, e preenchê-la com as tintas da vitalidade, do amor próprio e da força de vontade. É hora de começar a escrever meu próprio destino, ao invés de deixá-lo ser escrito pelo acaso. Preciso fazer isso, antes que as páginas se tornem amareladas e rotas, e a tinta vá aos poucos secando, desaparecendo.
Um feliz natal a todos, e que cada um possa pegar a sua pena e, juntos, escrevermos a história de um mundo mais feliz e mais justo.
27 Outubro 2008
O mundo lá fora
As janelas cumprem essa função de, por um breve instante, nos transportar para fora do mundo em que vivemos. Por isso, não há nada mais natural para um escapista do que gostar de janelas.
Este fim de semana olhei para fora do meu mundo, perdido entre o futuro e o passado, enquanto viajava de minha nova casa para a casa dos meus pais.
Vi algo parecido com isto:




09 Setembro 2008
Que me tornei cego
Vivi tanto tempo em silêncio
Que me tornei surdo
Vivi tanto tempo em desilusão
Que perdi a esperança
Meus sentidos se entrelaçam
Em denso sentimento
Que me cobre de angústia
Que se esvai como o sangue
Que escorre das feridas
Abertas pela paixão...
02 Junho 2008
As folhas do outono caem, e me identifico com elas.
Estas folhas douradas, lindas, porem secas.
Chegamos à metade do ano, e eu me aproximo do outono de minha vida.
O inverno logo chegará,
Depois dele, para os crentes, virá a primavera.
Não tenho assim tanta fé.
Como a folha seca, hei de cair, e me desfazer, até que os últimos ventos da Terra carreguem meu pó por sobre a sua face,
E selem meu destino rumo à eternidade de um universo sem luz.
Tenho o brilho dourado das folhas, que resplandece em minha vida bela, confortável e promissora.
Mas por dentro estou seco.
Assim como as folhas não vivem sem a árvore,
Também eu não posso viver sem ela.
Aguardo as brumas do inverno,
Que virão para fazer-me cumprir meu destino.
Nesse meio tempo, só me resta... viver.

